Discurso de Maria Morais, como Comissária da Exposição 'Artistas por Oeiras', realizada no Centro Cultural Palácio do Egipto.



"Os frades de um mosteiro acordaram em pintar as paredes do seu refeitório. Procuraram um pintor e encarregaram-no dos frescos. Veio o pintor, encostou uma escada à parede, abriu a caixa das tintas, pôs os pincéis em ordem e, quando tudo estava preparado, foi-se embora dizendo: - até amanhã. No dia seguinte não apareceu, nem tão-pouco em toda aquela semana; nem passado um mês. No entanto tudo estava preparado para que ele começasse a pintar.

Passados uns meses, um frade, ao regressar do seu passeio, contou aos seus companheiros que tinha visto na feira o pintor, rodeado de uma multidão de curiosos e feirantes. E pareceu-lhe que o pintor tinha esquecido para sempre as paredes do refeitório. Passados três meses, outro frade encontrou-o no campo, sentado numa pedra, mas não quis dar-se a conhecer, não fosse ele julgar que era para recordar-lhe as pinturas. Passados quatro meses, viram-no em plena noite, à luz do luar. Outra vez, num dia de sol, encontraram-no muito longe do mosteiro, por entre as árvores de uma estrada. Outro frade, no seu peregrinar, tinha-o visto à beira-mar, com as mãos nos bolsos, sem lápis nem papel, nem aparência de quem toma notas ou apontamentos. Na praia ninguém diria que era um pintor. Passado um ano, os frades tornaram a ver o pintor no mosteiro. Aproximou-se da escada, das tintas e dos pincéis como se os tivesse deixado na véspera. E começou a pintar as paredes do refeitório. Enquanto pintava não falava com ninguém. E os frades começaram a ver que ele ia reproduzindo os lugares onde cada um deles o tinha visto. A feira, o mar, a noite, a lua, as pessoas, o campo, as árvores, o sol, tudo nascia nas paredes do refeitório pela arte do pintor que durante um ano andou procurando o assunto para as suas cores.

Grande foi este pintor e bons os frades, que não lhe pediram o assunto, mas somente a pintura. Estes bons frades andaram neste caso como sábios, não tirando a escada, nem as tintas, nem os pincéis donde o pintor os tinha deixado, e apesar dele não ter voltado durante um ano. O ano simbólico desta história antiga".

Ensaios, Almada Negreiros

 

  • Não nos esqueçamos que este pintor andou um ano a ver, a procurar o assunto para as suas cores.
  • Esta é a ordem dos factos.
  • Os frades encarregaram-no dos frescos porque sabiam que ele era pintor.
  • Na verdade só passado um ano, o ano simbólico, desta história, o pintor foi pintor, porque, para além das tintas e pincéis ele tinha, também, o que é principal na pintura, nas artes em geral, na ciência e em toda e qualquer posição social do homem: a Autoridade Pessoal.

 

  • Nesta história mais do que a própria arte o que realmente interessa é o caminho deste pintor, desde as paredes nuas do refeitório até às pinturas dos frescos, ou seja, até que as suas cores deixaram de ser tintas, passaram a ser a Autoridade Pessoal.
  • Provavelmente hoje, todos nós, mostramos aqui uma parte do nosso olhar sobre as particularidades do mundo que observámos e registámos, memorizados durante o nosso deambular humano e artístico.
  • E é, perante a tela em branco, na pintura e o barro, a pedra ou a madeira em bruto, na escultura, até as cores na pintura e o barro a pedra ou a madeira na escultura deixarem, respectivamente, de ser tintas e e  aquele material inerte, que se manifesta a Autoridade Pessoal.
  • Com o decorrer do tempo, e há medida que vamos consolidando os nossos objectivos, caminhamos no sentido “personalizado” do fazer.
  • E, como é que cada um de nós vai ao encontro da sua personalidade?
  • Em 1º lugar com a autoridade pessoal e em 2º lugar com o caminho que vamos desenvolvendo até à pintura e escultura, ou outras formas de expressão, que é feita através do Desenho.

Portanto a Pintura/Escultura/etc, coincide com a Personalidade e o Desenho com a Autoridade Pessoal. (o desenho é a base de toda e qualquer representação, quer seja bi ou tridimensional).

O desenho é tão importante que ficou célebre aquela frase de Napoleão ao dizer: -“Mais vale um croquis do que um longo relatório”.

Para terminar, quero agradecer a toda a equipa do CCPE, que organizaram e participaram, juntamente connosco, na montagem deste projecto, ao pintor Luís Vieira-Baptista que comigo comissaria a exposição, ao Director Pedagógico da Escola de Musica de Linda-a-Velha, Pedro Figueiredo, pelo deleite musical, que torna este evento eloquente e dizer aos responsáveis da CMO, neste evento, ………., quão sábios foram (porque se comportaram como os frades do mosteiro do ensaio de José de Almada Negreiros), não nos exigindo um tema nesta exposição que reúne 42 Artistas Plásticos Portugueses, com linguagens diferentes, mas sim deixando-nos exprimir os universos invisíveis e a interioridade temática e estética de cada um de nós manifestando assim a nossa personalidade nesta mostra que intitulámos, “Artistas por Oeiras”.

 

 


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